MONSTRA, porque o essencial é invisível aos olhos!

“Se continuas vivo é porque ainda não chegaste onde devias.”
Albert Einstein

                                      

Uma das cinematografias que mais motivou a existência do Festival MONSTRA foi o cinema de animação produzido no Canadá. Um dos homens, que também nos marcou, e que mais inspirou o cinema de animação daquele país faria, a 11 de abril de 2019, 105 anos.

Foi um vanguardista, um inovador, um criativo, um experimentalista, das imagens e dos sons. A sua verdadeira paixão era o movimento. O movimento real também, adorava a dança, mas o seu fascínio era pelo movimento criado imagem a imagem. Não o movimento mimético, copiado da realidade, antes o movimento livre que se cria e recria no cérebro de cada espetador, no momento da projeção. Tratava-o como um poeta. Produzia-o como um ourives. Foi um animador. Um realizador de filmes de animação.

Escreveu um 1995 a frase mais simples e mais completa sobre o que é o cinema de animação: For the animator, the difference between each successive frame is more important than the image on each single frame. Animation therefore is the art of manipulating the differences between successive frames.

Para Norman McLaren, o homem de quem falamos, o mais importante no cinema de animação não é o que se vê em cada imagem, mas antes o que se passa entre cada imagem… o invisível.

E esse invisível criou, ao longo destes 127 anos de existência do cinema de animação, uma fascinação tão grande que trouxe para esta arte milhares de pessoas do mundo inteiro. Tornou-a naquela que é hoje, talvez, a arte mais usada no mundo inteiro. Seja na comunicação ou no entretenimento, na visualização, experimentação e exemplificação, em todas as áreas, artes e ciências, exatas, sociais e humanas.

Da simples app que nos permite criar curtos gifs, aos complexos testes ou exemplificações técnicas. Da publicidade aos mais espetaculares filmes ou jogos digitais. Dos avatares aos poderosos simuladores de realidade virtual ou aumentada. Tudo assenta sobre imagens criadas uma a uma. Tudo é animação.

Na MONSTRA fazemos o encontro das pessoas com estes dois aspetos de uma arte fascinante e deslumbrante: com a simplicidade de materiais, técnicas e formas, mas também com a sua diversidade e complexidade técnica e tecnológica.  

Criamos anualmente pontes entre novos e futuros criadores. Criamos laços entre grandes autores com crianças e jovens, ajudando a melhor entender a essência de uma arte fundamental no seu futuro. Conscientes que a diversidade e o conhecimento permitem que seja mais difícil sermos ludibriados por imagens, conceitos e ideias menos edificantes.

A partir da vasta retrospetiva que delineamos do cinema de animação realizado e produzido no Canadá, propomos uma viagem pelo passado e pelo presente da animação ajudando a criar o futuro que já passou. É, também, uma homenagem a Norman McLaren e a todos os que o acompanharam nesta viagem de 80 anos do National Film Board of Canadá (ONF/NFB).

Uma viagem que juntou o mundo ao redor desses interstícios, desse invisível que se encontra entre cada imagem e que é a essência do movimento, do pensamento e da liberdade de cada individuo criar e construir a sua própria opinião, ideia, movimento.

Quem sabe…talvez Norman McLaren se tenha inspirado em Saint-Exupéry, quando escreveu que “…o essencial é invisível aos olhos”.

Fernando Galrito

(Diretor artístico do festival MONSTRA)