NFB of Canadá – TERRA DE ACOLHIMENTO

Os filmes Contes de quartier, de Florence Miailhe (2006), Les cordes de Muybridge, de Koji Yamamura (2011), Edmond était un âne, de Franck Dion (2012) e Le retour des aviateurs, de Olga e Priit Parn (2014) são exemplos eloquentes de coproduções frutuosas entre os estúdios de animação do National Film Board of Canada (NFB) e artistas de renome da animação mundial. Estas colaborações de grande envergadura, a sua maioria recentes, não apareceram subitamente, no seguimento da implementação de uma política de coprodução internacional, estão, pelo contrário, verdadeiramente enraizadas na própria história da implantação do cinema de animação no NFB.

O National Film Board of Canada (NFB) celebra este ano o seu 80º aniversário. Embora o mandato original desta instituição fosse em grande parte orientado para o Canadá – dar a conhecer o Canadá aos canadianos e ao estrangeiro –, o NFB, desde a sua criação, abriu-se decididamente para o mundo. É de relembrar, aliás, que a criação do NFB responde, em primeiro lugar, a uma necessidade de unificação do país em tempo de guerra, para assegurar as comunicações em 10 províncias que ocupam um grande território geográfico e garantir que os canadianos se possam conhecer melhor uns aos outros.

Até a sua própria criação se deveu a um escocês, John Grierson, chamado pelo governo canadiano para criar o NFB. A pedido das autoridades canadianas, Grierson realizou uma análise do estado do cinema no Canadá e, com base na sua própria experiência na Grã- Bretanha (no Empire Marketing Board Film e na General Post Office Film Unit), recomendou a criação do National Film Board of Canada. Grierson viria a tornar-se no primeiro comissário de cinematografia do governo e presidente do NFB.

Grierson, por sua vez, chamou um outro escocês, Norman McLaren. Originário de Stirling, é por convite do comissário que McLaren emigra para o Canadá em 1941 para começar o ambicioso projeto de montar uma equipa de animadores. A especialização em animação era, na altura, inexistente no Canadá, e McLaren era o candidato certo, já que tinha tido a oportunidade de experimentar a animação e diversas técnicas de cinema nos seus três anos de passagem pela General Post Office Film Unit de Londres. Entre 1936 e 1939, realizou o filme Love on the Wing, desenhado a caneta de aparo sobre película.

Depois de formada a primeira equipa com animadores canadianos como Evelyn Lambart, Jean-Paul Ladouceur, René Jodoin, Grant Munro e Robert Verrall, Grierson não tardou a convidar dois artistas estrangeiros, Alexandre Alexeïeff e a sua esposa Claire Parker, para participarem na produção de uma série chamada “Chants populaires”. O casal tinha realizado, em 1945, em Nova Iorque, o filme En passant, usando uma sua famosa invenção, o ecrã de alfinetes, ferramenta curiosa que exerceu tal fascínio sobre Norman McLaren queeste encomendou um exemplar – o NEC – em 1972. Nesse mesmo ano, o casal de inventores foi convidado para os estúdios de animação de Montreal para dar um workshop a um grupo de cineastas do NFB sobre essa técnica incomum, tendo daí resultado o documentário L’écran d’épingles. 

Durante os anos 50, uma década após a criação do estúdio de animação, a filiação inglesa ainda estava bem presente. De destacar, os realizadores Gerald Potterton e Derek Lamb, que deixaram Inglaterra e se candidataram a um emprego no NFB para se juntarem a McLaren e à sua equipa. Foi depois de ver os filmes Voisins (1952), de McLaren, e The Romance of Transportation in Canada (1952), de Colin Low, Potterton decidiu tentar a sua sorte na NFB, algo que só conseguiu em 1954 ao coproduzir o filme Huff and Puff, com Grant Munro. O seu filme My Financial Career (1962) é certamente a sua obra mais conhecida do período NFB e foi, aliás, nomeado para um Óscar. Durante vários anos, Potterton saiu e voltou para o NFB, antes de abrir sua própria casa de produção em Montreal, em 1968. É nesse contexto que vai contribuir naquele ano, com a sua equipa, para a realização da longa-metragem animada Yellow Submarine, de Georges Dunning. Por sua vez, Derek Lamb entrou no NFB em 1959 e fez a sua estreia na série Hors-d’oeuvre (1960). Artista multidisciplinar – animador, músico, produtor, realizador e encenador –, torna-se produtor executivo do estúdio inglês de animação de 1976 até 1982. Duas das suas produções ganharam o Óscar de melhor curta-metragem animada: Special Delivery (John Weldon e Eunice Macauley, 1978) e Every Child (Eugene Federenko, 1980).

Durante os seus mandatos como produtores, desde os anos 60, Wolf Koenig e Robert Verrall acolheram cineastas de diversas origens. Existiam então pelo mundo alguns locais de formação e produção de animação. Esta ideia de convidar realizadores estrangeiros permitiu acesso a uma maior variedade de abordagens e de estilos do que os existentes então no estúdio. É, aliás, interessante notar que são acolhidos por diferentes razões. Nuns casos um produtor convida um realizador por causa de um conhecimento técnico específico, da sua notoriedade, etc. Noutros casos, dá-se a emigração para o Canadá de artistas estrangeiros com o objetivo de se juntarem ao estúdio de animação do NFB, como foi o caso de Potterton e Lamb. Isto deve-se à reputação invejável e à projeção extraordinária da instituição e dos seus trabalhos pelo mundo. Nessa época, o cinema de Norman McLaren, devido ao seu caráter único e inovador, teve um enorme impacto sobre um número impressionante de artistas desejosos de terem acesso a este tipo de criação. Vale a pena acrescentar que as políticas de imigração do Canadá, na altura, eram muito mais flexíveis e abertas do que são hoje.

Assim, as décadas de 60 e 70 caracterizaram-se por uma forte convergência de talentos internacionais que trabalhavam nos estúdios de animação, ainda para mais agora situados em Montreal (o NFB esteve em Otava de 1940 até 1956). Mais de duas dezenas de realizadores das mais diversas proveniências vieram trabalhar para o NFB. A criação do estúdio de animação francês em 1966, por René Jodoin, também fez parte deste contexto de efervescência.

Foi assim que chegaram ao Canadá os holandeses Co Hoedeman e Paul Driessen e o indiano Ishu Patel. Chegando a Montreal com 25 anos, Hoedeman, que tinha muito pouca experiência, interessou-se pela animação de marionetas e completou o seu primeiro filme, Maboule, em 1969. Dois anos depois, o NFB enviou-o para a Checoslováquia para um estágio de quatro meses em que aperfeiçoou a sua mestria em marionetas. A decisão de emigrar para o Canadá terá sido determinante para este realizador que trabalhou para o NFB cerca de 40 anos e ganhou um Óscar em 1977 pelo seu filme Le châteu de sable. Paul Driessen foi fortemente inspirado pelo percurso de Co Hoedeman. Desejoso de trabalhar com o NFB, mas sem dinheiro para vir para o Canadá, acaba por ser Gerald Potterton quem lhe paga a viagem
para vir trabalhar no seu estúdio em Montreal. Foi a irmã deste último que Driessen conheceu em Londres enquanto trabalhava na longa-metragem Yellow Submarine e que lhe deu a dica de que o irmão estava a contratar animadores. Visita diversas vezes o NFB antes de conseguir realizar aí a sua primeira curta-metragem pessoal, Le bleu perdu (1972). Alcunhado pelos seus colegas de "O animador dentro de uma mala", Driessen dividiu a sua vida entre os Países Baixos, o Canadá e a França, continuando a trabalhar com o NFB, muitas vezes através de coproduções internacionais. Quanto ao artista indiano Ishu Patel, foi graças a uma bolsa da Fundação Rockefeller que se juntou ao NFB em 1972 para um ano de formação. Acabou por trabalhar no NFB, como realizador e produtor, durante vinte e cinco anos, realizando entre outros Paradis, vencedor de um Urso de Prata no Festival de Berlim em 1984.

O realizador checo Bretislav Pojar inicia uma longa colaboração com a instituição desde 1969, ano em que completou a sua curta-metragem To See or Not to See. Especialista em marionetas, mas também em técnica de recortes, Pojar realizou mais de meia dúzia de filmes de animação no NFB e teve uma influência marcante em muitos cineastas. A sua colaboração com Jacques Drouin no filme L’heure des anges (1986) é um exemplo do caráter produtivo das suas colaborações. Os dois artistas trabalharam umas vezes à distância – um em Montreal e o outro na Checoslováquia – outras juntos, forçando os limites técnicos das suas respetivas artes, combinando a técnica da marioneta com a da ecrã de alfinetes, esta última sendo usada pela primeira vez com cores.

Em 1975, a alemã Lotte Reiniger, pioneira da animação e especialista em animação de silhuetas e técnica de recortes, foi convidada a dar workshops no NFB e a realizar o filme Aucassin et Nicolette, um dos seus últimos filmes.

Como produtor executivo do estúdio de animação francês, René Jodoin apelou a vários cineastas estrangeiros para que contribuíssem para o desenvolvimento das abordagens técnicas e estéticas do estúdio. É o caso da belga Clorinda Warny, que foi uma das artistas estrangeiras a ir trabalhar para o estúdio de animação francês. Com a sua vasta experiência como animadora na Bélgica, onde trabalhou na Belvision, ajudou a formar vários jovens animadores, entre os quais Francine Desbiens e Suzanne Gervais. Este também é o caso de Caroline Leaf – descoberta por Derek Lamb num workshop que deu na universidade de Radcliffe, perto de Boston – que dominava a técnica de animação de areia sobre uma placa de vidro e fez seu primeiro filme com o NFB em 1974, Le mariage du hibou: une légende eskimo. O interesse de Jodoin pela informática e pelas novas tecnologias traduziu-se no convite do franco-húngaro Peter Foldès, realizador, desenhador e pioneiro da animação por computador. Foldès, numa parceria entre o NFB e o Centro Nacional de Investigação do Canadá, realizou dois filmes no estúdio de animação: Metadata, em 1971, e sua obra-prima, La faim, em 1973.

Durante os anos 90, primeiro sob a direção de Pierre Hébert, e depois de Marcel Jean, desde 1999, tomou forma no estúdio de animação francês uma política de coprodução internacional. Apesar das crescentes restrições à imigração no Canadá e da evolução da situação financeira dos organismos culturais, a competição saudável dos estúdios de animação do NFB com os melhores talentos do mundo ainda está no centro das suas preocupações e traduz-se em novas formas de colaboração. A associação do estúdio de animação francês com a residência de artistas no Folimage, durante uma dúzia de anos, é uma das iniciativas importantes nessa renovação. Os novos projetos em produção, como Je ne sens plus rien, do casal belga Carl Roosens e Noémie Marsily, Sexe pour blasé, da polaca Izabela Plucinska, e Oncle Thomas, da portuguesa Regina Pessoa, são outros tantos exemplos do desejo do NFB de aumentar as experiências de trocas criativas com talentos de outros lugares.

Julie Roy
Produtora executiva
Estúdio de animação francês do National Film Board of Canada