18 anos de MONSTRA, à Solta em Lisboa e no Mundo!

“…não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!”

Fernando Pessoa – Bernardo Soares (Livro do Desassossego)

 

Na sequência de muitas ações, mas em especial de uma instalação artística na bienal de Cerveira em 1998 (há 20 anos) que glosava um moinho de água que se movia à força de sopros de um zootrópio gigante, pensámos em fazer este festival, e com ele celebrar a criatividade e transversalidade artística.

E, em Maio de 2000, começámos a fazer encontrar pessoas de diferentes mundos, culturas e artes. Um percurso que pretende transmitir novos olhares artísticos, usando como base a linguagem mais pluri e transdisciplinar que conhecemos, a única que constrói novos movimentos, sensibilidades e emoções a partir de imagens inertes, o Cinema de Animação.

A MONSTRA é, há 18 anos, a nossa provocação, o nosso espaço de encontro de experimentação e de diálogo entre diferentes linguagens. Exploramos desde sempre o conceito: o cinema de animação não começa nem acaba no ecrã. Inicia-se antes do ecrã, nas exposições que representam os bastidores e o pensamento artístico até à criação final.

Nos ecrãs materializa-se o melhor cinema de animação que se realiza no mundo. Para além do ecrã a animação explora novos diálogos artísticos contemporâneos e vanguardistas entre a arte da imagem animada e todas as artes analógicas e digitais, plásticas, virtuais e aumentadas. Um encontro de mundos, culturas, tecnologias, saberes e experimentação.

No ano da maioridade mantemos este rumo trazendo a Lisboa e às cidades parceiras da MONSTRA à SOLTA, um olhar profundo sobre o cinema de animação da Estónia. O País completa em 2018 100 anos de existência. Uma retrospetiva que será marcada por grandes obras e grandes mestres como Kaspar Jancis, Priit Tender, Chintis Ludgren, Rao Heidmets ou Priit Parn, este ultimo autor da ilustração do cartaz MONSTRA 2018. Estes e muitos outros fazem do cinema de animação estónio, pelo seu experimentalismo, pela sua diferença e por uma estética muito singular, um dos mais aclamados, apreciados e premiados de todo o mundo.

A par desta grande retrospetiva, com cerca de 150 filmes, temos as “fugas para a liberdade”. Um programa constituído por grandes obras de arte da História do Cinema de Animação das quais destacamos; Belleville Rendez-Vous de Sylvain Chomet (que estará entre nós), O Planeta Selvagem de René Laloux e, uma das obras maiores da animação de todos os tempos, O Submarino Amarelo de George Dunning.

O programa do festival será ainda marcado pela antestreia de Early Man do já quadri oscarizado Nick Park que virá à MONSTRA para falar sobre o filme e sobre a sua obra.

Mas momentos altos da MONSTRA 2018 serão também a apresentação das estreias mundiais: Os 4 Estados da Matéria, o primeiro filme de Miguel Pires de Matos que, para além de ser um grande amigo do festival, iniciou a sua atividade de realizador na MONSTRA. Outra estreia de peso é The Origin of Sound (A Origem do Som), filme de um dos mais reconhecidos, talentosos, inovadores, premiados e Oscarizados realizadores de todos os tempos, Paul Driessen. A estas juntamos Maria and the 7 Dwarfs (Maria e os 7 anões), uma produção da Nukufilm da Estónia com realização do mestre Riho Unt.  Todas estas estreias contam com a presença dos autores que farão master classes, havendo ainda, uma exposição de imagens, únicas, do filme de Paul Driessen.

Para além destas, outras estreias nacionais e mundiais acontecerão nas diferentes competições. Exemplo disso é The Breadwinner (vencedor do Emille Award) um drama atual, sobre uma menina que se traveste de rapaz para passar a ser o chefe de família enquanto o seu pai está preso; La Gatta Cenerentolla, um filme italiano onde realidade e fantasia cedem lugar à verdade crua, ou Have a nice day do realizador chinês Jian Liu, a China de hoje, apanhada entre a tradição e um novo começo.

Estes são alguns exemplos da diversidade da competição MONSTRA 2018, a par da meia centena de grandes filmes na Competição de Curtas, de mais de 60 na Competição de Estudantes e outros tantos nas Supershorts e na Competição MONSTRINHA Escolas e Pais e filhos. A Competição Portuguesa, este ano com uma participação recorde, apresenta uma dúzia de obras de grande qualidade, equiparadas às melhores que apresentamos nas competições internacionais, mostrando a vitalidade e qualidade da produção nacional.

Nesta edição, também a não perder, a grande e diversificada retrospetiva de filmes japoneses. Destaque para o realizador Mamoru Hosoda (já premiado na MONSTRA) e para a estreia em Portugal de Gauche de Cellist do mestre Isao Takahata (apresentado pelo produtor Takashi Namiki) e pelas retrospetivas dos oscarizados Kunio Kato e Koji Yamamura ambos presentes nesta edição da MONSTRA.

Os mais pequenos merecem também toda a atenção da nossa programação. A MONSTRINHA, tanto nas sessões escolares como nas sessões Pais e Filhos, apresenta o melhor da animação mundial para miúdos e graúdos.

Na relação que mantemos anualmente com o “antes do ecrã” destaque para as nove exposições a realizar no museu da Marioneta, Fábrica do Braço de Prata, Cinemateca Portuguesa e Cinema São Jorge. Originais de grandes autores e marionetas da Estónia e de filmes portugueses. A programação; “para além do ecrã”, tem como tema a realidade aumentada (RA), com mesas redondas, demonstrações e A MONSTRA à solta por toda a cidade podendo ser encontrada com uma aplicação de RA. Na parceria entre o Hot Club de Lisboa e a MONSTRA apresentamos dois concertos de improviso sonoro, visual e de movimento, um diálogo entre uma Jazz Band e dois animadores que, ao vivo, vão criar obras sonoras e de animação.

A criação pela diferença vai voltar a acontecer uma vez mais neste festival, nesta MONSTRA.

Vamos, como sempre, dar espaço ao criador e ao observador. Liberdade e criatividade, sensações e emoções muito diversificadas, porque a criação é o espaço da transgressão da emoção e porque a Animação deve ser, em nosso entender, uma constante metáfora que ultrapassa a mimética ou a simples cópia da realidade.

Não pensámos, nem queremos, este festival (apenas) como um momento de reposição ou apresentação de filmes. Ele será sempre um espaço de diálogo, troca, experimentação, rutura, transgressão e subversão. Motivador e essencial à criação artística de vanguarda.

Um festival humanista e de encontros. De muitos para cada vez mais. Um Festival marcado pela ideia de que a Arte não é apenas o espelho para refletir o mundo, é, sim, a essência para a sua transformação.

Fernando Galrito
Diretor Artístico da MONSTRA